14 agosto 2010
Bram Stoker e a mitologia do vampirismo
Em tempos de filmecos aborrecentes de vampiros, chegamos ao auge da deturpação e consequente declínio de um tipo de personagem que eu costumava adorar. Se perguntar a qualquer um na rua o que sabe sobre vampiros, esta pessoa provavelmente vai dizer que são seres que bebem sangue, não possuem reflexo no espelho, se transformam em morcegos, dormem em caixões, tem medo de crucifixo e água benta e viram pó se forem expostos ao Sol. No dias atuais podem até dizer ainda que são sexys e românticos. É uma mitologia constituida e já faz parte de nossa cultura, presente no consciente coletivo da humanidade.
Li o livro de Bram Stoker muito cedo, já na adolescência, e desde lá tenho um senso muito crítico com relação às produções sobre o tema, fato que me faz manter distância de boa parte das obras atuais do gênero. O que mais me espanta, entretanto, é que apesar de Drácula ser sua referência máxima, ele nunca foi respeitado ou levado a sério, sofrendo inúmeras liberdades nas várias adaptações que o sucederam. O estranho disso tudo é que durante todo o tempo desde a obra original, se construiu uma mitologia do vampirismo que deturpa por completo a mitologia descrita por Bram Stoker.
O primeiro elemento que podemos citar desta mitologia é a luz solar, que acabou virando a maior fraqueza dos vampiros em praticamente quase todas obras. Para se entender isso, voltamos à década de 20, com Nosferatu, de Friedrich Wilhelm Murnau. Impedido na época pelos herdeiros de Stoker de adaptar seu livro, acabou alterando uma coisinha aqui outra ali e fez do filme um Drácula genérico, usando a mesma estrutura básica da história. Neste filme, até bastante fiel à obra literária, trazia um detalhe que marcou a mitologia para tudo o que veio a seguir sobre vampiros: no final, o vampiro é destruído pela luz do Sol.
No livro de Stoker, a luz solar nunca foi algo mortal para o vampiro, contendo, inclusive, um trecho onde os heróis da história o perseguem em pleno dia, tendo apenas seus poderes sobrenaturais anulados e ficando, obviamente, mais vulnerável. Esta confusão se deu porque, simplesmente, no livro, Drácula foi destruído ao amanhecer pelos seus perseguidores, sendo decapitado e virando pó. Aliás, a decaptação era a única coisa que realmente podia destruir o monstro e o fato dele virar pó não tem nada a ver com a luz solar, apenas porque o pó seria o estado natural de seu corpo após séculos de sua verdadeira morte.
Acredito que pelo filme ser bem mais acessível que a obra literária, este negócio de luz solar acabou virando uma regra. Mas uma coisa o filme de Murnau mantinha com grande mérito: o vampiro era um ser desprezível, causava repulsa, um verdadeiro monstro, coisa que se perdeu nos dias atuais. Hoje os vampiros são belos, sexys e até brilham!
O alho propriamente dito não era utilizado para afastar os monstros, e sim suas flores, e o uso dos elementos cristãos fica óbvio ao observarmos a cultura e a religião da época, dos personagens e, principamente, do autor; já que os vampiros eram demônios e a sociedade bastante supersticiosa. São elementos que, juntamente com a estaca, ganharam grande força dentro da mitologia no decorrer dos tempos.
O caixão é outra coisa equivocada pelas várias versões cinematográficas. Os caixões de Drácula nunca foram "caixões de defunto", e sim grandes caixas contendo a terra natal do Conde. Ele necessitava da terra para manter seus poderes, que vinham de seu local de origem, e quando todas elas são inutilizadas por Van Helsing e sua trupe, ele necessita urgentemente voltar para a Transilvânia, dentro da única caixa que conseguira manter.
Os poderes de transmutação de Drácula também acabaram ficando relegados apenas à forma de morcego, já que no livro ele podia se transformar também em lobo e névoa, além de ter controle sobre os seres da noite. Não sei se por falta de recursos das primeiras adaptações, mas se convencionou que vampiros se transformam apenas em morcegos. O filme A Hora do Espanto até trouxe o personagem Evil Ed se transformando em lobo, mas me lembro que muitos na época o chamaram de lobisomem, causando uma grande confusão.
No filme Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Coppola, muitos destes mitos originais foram respeitados, numa vã tentativa de resgatá-los. Neste filme, Drácula caminha durante o dia, repousa em suas caixas de terra, são mostradas flores de alho, se transmuta em morcego, lobo, névoa e até mesmo ratos (no livro ele apenas tinha controle sobre os roedores), e os vampiros são destruídos contando-lhes as cabeças. Mas ficou por aí, nas produções que se seguiram, os mitos construídos no decorrer do século continuaram com sua força tradicional.
O filme de Coppola, porém, traz humanidade ao vampiro, que até amor sentia, algo que não condiz em nada com sua caracterização como monstro. Isto é uma coisa que ficou muito comum nas produções dos dias atuais: vampiros agindo com consciência como se apenas tivessem ganho poderes sobrenaturais. No filme Crepúsculo, Edward até se preocupa em não transformar sua amada Bella em vampira pelas consequencias que isto pode trazer a ela. No livro de Stoker, Drácula era um monstro, com todas suas conotações possíveis. Era um demônio repulsivo! Lucy, quando se transforma em vampira, deixa completamente de ser a adorável dama para beber sangue de criancinhas e agir como uma morta viva, como se estivesse possuída por um demônio, argumento usado por Van Helsing para que seu noivo corte sua cabeça.
Outra coisa bastante explícita na obra de Bram Stoker era a sexualidade de Drácula, que nunca sugava o sangue de homens, apenas de mulheres. Os homens eram torturados e mortos, mas nunca tinham seu sangue sugado. Isto porque o "beber sangue" tem, na verdade, uma conotação sexual. No filme A Dança dos Vampiros, de Roman Polanski, temos um cena hilária onde o filho homosexual do Conde persegue o personagem interpretado pelo próprio Polanski a fim de beber seu sangue. Esta conotação sexual também é vista no filme Sede de Viver, onde a vampira interpretada por Catherine Deneuve substitui o envelhecido parceiro interpretado por David Bowie pela personagem de Susan Sarandon, num evidente relacionamento lésbico. Ou isto se perdeu por completo nos dias de hoje ou os vampiros atuais são todos bissexuais. Acho que os produtores vem seguindo a cartilha de Anne Rice, autora de Entrevista Com o Vampiro, que também ganhou versão cinematográfica, mas não entenderam que seus personagens eram bissexuais. Não li o livro, mas fica bastante evidente, pelo menos no filme, que os personagens de Brad Pitt e Tom Cruise são gays. Não que eu tenha algo contra, mas não acho que era a intenção de um personagem como Blade, por exemplo, ser bissexual.
Uma grande febre por filmes juvenis sobre vampiros tomou conta de Hollywood nos últimos anos, nos trazendo obras descartáveis e esquecíveis envolvendo criaturas outrora assustadoras como vampiros e lobisomens, o que vem transformando ainda mais a mitologia. Hoje os vampiros ou são belos e elegantes ou protagonizam cenas de ação como se fossem super-heróis. O que conta no cinema atual são filmes de ação para os meninos e romântico para as meninas, ou as duas coisas combinadas para atrair o maior público possível, então nada mais confortável para os produtores do que saturar o tema sugando até o último sangue, com o perdão do trocadilho. Bram Stoker deve estar se contorcendo cada vez mais no túmulo. Chega de vampiros, Crepúsculo foi literalmente o fim da picada pra mim!
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