12 dezembro 2005

Os Tranquêra

Fazia mais ou menos um ano que eu havia desenhado meus primeiros personagens e ainda não havia um nome para a tira. Muitos passaram pela minha cabeça como Os Vagals ou algo do gênero, mas ainda não havia encontrado o nome ideal. Nessa época eu estava de partida de São Paulo e fui me aventurar no Nordese, mudando-me para Recife. Fui atrás da Manguetown buscando sua efervescente cena musical e cultural. Achava que morando em Recife eu seria bombardeado por referências de sua cultura. O que aconteceu foi inesperado pois observar toda aquele movimento me fez valorizar a minha própria cultura. Me fez querer buscar minhas próprias raízes ao invés de simplesmente me deixar influenciar por uma cultura que, embora muito interessante, não fazia parte da minha vida. Acho que talvez seja essa a essência do Manguebeat ou da própria Tropicália. O aspecto antropofágico desses movimentos me forçou a repensar minha própria cultura, admitindo influências exóticas de culturas diversas e ajundando a traduzir minhas próprias raízes.
Morando distante, fiquei mais de um ano sem contato com minha terra e isto me trouxe uma saudade indescritível. Para piorar, durante o tempo em que estive procurando emprego, ocupava meu tempo lendo Guimarães Rosa, o que influenciou muito a forma como eu escrevia. A forma coloquial como passei a escrever teve influência não só de Rosa, mas também de dois músicos que eu gostava muito: o baiano Elomar fiqueira e o paulista Adoniran Barbosa. Não era de meu interesse ser acadêmico ou literal demais, apenas fiquei tentado a escrever da mesma forma que eu e meus amigos falavam. Foi nessa época que pensei num nome que se eu chegasse para os meus amigos os chamesse, todos olhariam. Estava criado o nome: Os Tranquêra.

As Meninas




Desde o início rabisquei algumas meninas para fazerem companhia aos meus personagens já criados, Morgado, Bolha e Podrêra. Depois de alguns esboços jogados fora, eis que surge Rita. Desenhada para fazer um contraponto a Morgado, Rita seria o alvo de seu interesse, já que eu não queria que fosse sua namorada. Ela seria então a versão em traço de minhas desilusões amorosas, representando aquela menina bonita de que todos ficam afim mas poucos são os felizardos que conseguem sua atenção. Não há dúvida de que Rita e Morgado foram feitos um para o outro, mas algo acontece ou falta acontecer para que fiquem juntos. O nome escolhido para ela veio de várias fontes, e, assim como Morgado, era um nome que eu já tinha em mente fazia algum tempo. Eu ouvia muito Os Mutantes nessa época, por volta de 1997, e o nome de Rita Lee acabou sendo uma referência muito forte para mim. Outra fonte era a música Lovely Rita, dos Beatles, mas o que havia mais influenciado minha escolha foi um comentário de um amigo meu sobre uma menina de nossa cidade: Rita é nome de maluca, não é? Tava escolhido o nome de minha primeira personagem.
Juanita surgiu como a alma gêmea de Bolha, sua versão feminina, uma espécia de Eva feita de seus traços básicos. Inicialmente faria um par meio casal neuras, mas acabei optando por fazê-los como duas caras-metade. Embora parecidos, Juanita seria mais inteligente e esperta que Bolha e menos introspectiva. Seu traço original era bem neo hippie, mas acabei suavisando este aspecto de sua imagem deixando-a mais moderna. O nome Juanita foi retirado de uma música dos Mutantes, El Justicero, e parecia acrescentar um aspecto lisérgico à personagem.

O Trio Pirado




Na época em que comecei a me empenhar na criação de um personagem, um nome veio à minha mente: Morgado. Este nome remete aos tempos ociosos em que eu e meus amigos de adolescência passávamos as tardes jogando bilhar. Quando cansados, sentávamos nos bancos da praça segurando um copinho de café e jogávamos conversa fora. Era a época em que ficávamos apenas “morgando”, ou seja, ficando à toa, segundo a gíria.
Morgado foi o primeiro do trio de tranquêra a ser esboçado e o último a ser finalizado. Passei muito tempo desenhando e redesenhando seu visual até chegar a algo satisfatório.
Seu primeiro esboço foi logo acompanhado do primeiro Bolha. Criados para serem as duas faces de uma mesma moeda, Morgado e Bolha são aqueles tipos opostos que acabam sendo grandes amigos, simplesmente porque um representa o limite do outro. Eles se equilibram. O nome Bolha foi retirado de um personagem que eu fazia numa rádio pirata durante a adolescência. Bolha representa as erratas que eu frequentemente presenciava, seria um tipo mais alucinado, de raciocínio mais lento e um tanto introspectivo. Já Morgado era mais sóbrio, esperto e extrovertido, exatamente o seu oposto.
Pouco tempo depois, senti que faltava alguma coisa. Faltava um personagem que representasse certas escrotidões e porraloquices de alguns amigos meus. Eram temas que eu não conseguia encaixar eficientemente na dupla já criada. Resolvi então que este novo personagem seria um tipo mais metaleiro, com a cabeleira cobrindo os olhos. Certa vez, li erroneamente “Podrêra” num ônibus onde estava escrito “Pedreira”, e lembrei da forma “carinhosa” como nos referíamos a um som mais sujo e pesado. Estava nomeado o terceiro personagem, completando assim o meu trio pirado de tranquêra.

11 dezembro 2005

A Primeira Tira



Os Tranquêra surgiram em 1997, época em que eu morava em um apê na Consolação em São Paulo e concluía a Faculdade de Publicidade e Propaganda na FAAP. Entre as diversas noites em que eu e meus colegas “varava” a madrugada devido ao trabalho de conclusão de curso, nasceram os primeiros embriões dos personagens que viriam a ser Os Tranquêra de hoje. Nessa época, um pouco antes de começar a trabalhar em uma pequena editora, passei várias tardes ociosas deitado em meu colchão e assistindo MTV numa TV que ficava ao pé de minha pseudo-cama. Os pesonagens Morgado e Bolha foram os primeiros a serem esboçados, influenciados pelas tiras de Wood & Stock, personagens de Angeli. Criados para serem um auto-retrado de meus amigos, Morgado seria um cara preguiçoso e meio perdedor, e Bolha o seu amigo alucinado e viajante. A tira “Asteróides” foi a primeira a ser criada, exatamente por eu ficar viajando o dia todo deitado em meu colchão e assistindo TV. Esta tira foi redesenhada umas 3 vezes, pois no início meu traço ainda era muito tosco. Nas duas primeiras versões havia uma TV, retratando exatamente o modo ocioso em que eu me encontrava naqueles dias. Eu gosto muito desta tira porque ela representa o verdadeiro início de meu processo criativo em quadrinhos. Antes dela, eu simplesmente não fazia a mínima idéia de como sequer conceber uma tira. Posteriormente, fiz algumas variações do mesmo tema, tentando explorar o potencial alucinante de meu personagem.